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Antropóloga debate violência contra a mulher em canteiro de obra

Organizada pelo TJMG, palestra integra programação da Semana Justiça pela Paz em Casa

A antropóloga Angelina Parreiras falou sobre violência doméstica para uma plateia formada por 50 operários da construção civil

Já dizia o ditado que prevenir é sempre melhor que remediar. E a prevenção chegou para trabalhadores da construção civil em forma de palestra, para evitar um futuro remédio com gosto amargo e em forma de sentença.

Essa lógica foi colocada em prática na segunda-feira (9/3) pela antropóloga Angelina Parreiras, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em palestra proferida para trabalhadores de uma obra no Bairro União, região Nordeste de Belo Horizonte, sobre a violência contra a mulher.

Organizado pela Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Comsiv) do TJMG, o evento faz parte da mobilização do Judiciário em mais uma edição da Semana Justiça pela Paz em Casa, que ocorreu de 8 a 13 de março.

Nesse período, tribunais de justiça de todo o País concentram esforços para priorizar o julgamento de casos de violência doméstica e familiar contra a mulher.

Pontualmente a obra foi paralisada às 15h. Em uma sala improvisada, aproximadamente 50 operários acompanharam atentos todas as palavras e números alarmantes divulgados pela antropóloga Angelina Parreiras, convidada pelo Tribunal para proferir a palestra.

Mas a resistência dos trabalhadores tornou-se patente, principalmente quando foi aberta a sessão de perguntas. “Mas por que não existe Lei João da Penha?”, gritou um dos operários fazendo alusão à Lei Maria da Penha, que trata de crimes contra a mulher. “Mulher também agride os homens!”, exclamou outro operário com certo ar de indignação.

Mas aos poucos todos se renderam aos alarmantes números divulgados pela antropóloga, que mostram o quanto a mulher brasileira ainda é vítima de uma violência sem limites, principalmente por parte de seus companheiros.

“No Brasil, infelizmente uma mulher é assassinada por hora. Nesta mesma hora, outras 503 são agredidas. A cada 15 segundos uma mulher sofre algum tipo de violência, e ainda temos cinco espancamentos por minuto. São números muito ruins, e isso não pode continuar assim”, afirma.

Para Angelina, os trabalhadores da construção civil têm sido alvo dessas palestras porque a maioria absoluta é composta por homens. Na palestra desta segunda-feira, por exemplo, foram aproximadamente 50 homens e apenas 4 mulheres.

“Não se trata de uma escolha balizada na questão social, até porque a violência contra a mulher também atinge classes sociais mais elevadas. Mas os trabalhadores da construção civil possuem menos acesso à informação, e as palestras são um ótimo meio de levar consciência para esse público”, explica.

Ela lembra que para muitas pessoas a violência é traduzida apenas em agressões físicas, o que é uma inverdade. “A violência física é um dos problemas. As mulheres também são vítimas da violência moral, psicológica e até patrimonial”, acrescenta a antropóloga. E as crianças acabam sendo vítimas, direta ou indiretamente, da violência sofrida em casa pelas mães, afirma.

“Violência não se resume em tapas, em agressões físicas. Violência é proibir o uso de uma minissaia, é monitorar o celular da parceira, é impedir que ela tenha um emprego e seja independente. Violência é também se fazer de vítima após cometer uma agressão e transferir toda a responsabilidade para a mulher, que de vítima passa a ser a agressora”, lamenta Angelina.

O operário Raffaelle Pizani (esquerda) fez questão de interagir com a palestrante e com os colegas, ao relatar suas experiências pessoais

Ciúmes

A consultora de segurança da empresa R&S, Sandra Benfica, uma das organizadoras do evento, ressalta que novas palestras devem ocorrer em outros canteiros de obras. “Eles, os operários, inicialmente se mostram muito resistentes, mas no fundo entendem a mensagem”, avalia.

A coordenadora de qualidade da obra, Bruna Oliveira, lembra a importância dos relacionamentos serem construídos com respeito para evitar uma futura violência, não apenas contra a mulher, mas contra a família. “É um caso a se pensar. E, se não deu certo, que cada um siga o seu caminho e seja feliz. E o mais importante: sem violência!”, completa.

O operário Raffaelle Pizani, 40 anos, fez questão de interagir com a palestrante e com os colegas, ao relatar suas experiências pessoais. “Gostei de ouvir que violência não se resume em tapas. Eu tenho ciúmes da minha noiva e já peguei o celular dela para ver com quem ela conversava. Não imaginava que estava cometendo um tipo de violência. Agora eu sei o quanto agi de forma errada”, lamentou.

Fonte: Tribunal de Justiça de Minas Gerais

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